Localizado no Rio de Janeiro na cidade de Duque de Caxias o lixão de Jardim Gramacho é o palco de uma história surpreendente: certo dia de chuva no ano de mil novecentos e noventa e quatro Marcos Prado resolveu conhecer de perto onde eram depositados todos os dias o que ele e o restante da sociedade classificavam como lixo. Aliás, diariamente há mais de vinte e cinco anos que o aterro de Jardim Gramacho recebe mais de oitenta e cinco por cento do total da produção de lixo da capital carioca.
Ao longo vários anos de periódicas visitas ao até então lixão, Marcos chegou a ganhar alguns prêmios em fotografia e queria revelar a missão que o governo do estado firmara após a ECO-92 que era transformar o lixão em aterro. Ao decorrer de sua tarefa quase que cotidiana MP conheceu uma catadora de lixo que fazia parte de um grande time de catadores que juntos somavam cerca de dez mil, essa catadora atendia ao nome de Estamira, mulher firme e com feições sofridas. Em uma conversa com Estamira, MP ouviu dela que tinha uma missão de vida: revelar e cobrar a verdade. Depois foi perguntado se saberia qual era missão dele, e ela mesmo respondeu: sua missão é revelar minha missão. Daí a idéia de fazer um documentário sobre a vida de Estamira, a mulher que vivia em um castelo todo enfeitado com objetos encontrados no lixo.
O documentário tem cento e quinze minutos, foi produzido em dois mil e cinco, lançado em dois mil e seis pela Zazen Produções com produção de José Padilha. A Obra foi premiada vinte e três vezes nacional e internacionalmente.As características encontradas em Estamira são justificadas pelas suas explicações para todos os acontecimentos quer sejam naturais quer sejam físicos. A capacidade de teorizar assuntos cotidianos contrasta com o estereótipo que se tem de um catador de lixo, por isso é surpreendente. Tenho minhas dúvidas se muitos magistrados conseguiriam a compreender facilmente. È complexa. É completa. É louca! Essa última denominação é a sociedade ”normal” quem tece. Ela sofre de distúrbios mentais, mas não concorda com a clínica e o diagnostico que a tornam uma má. O fato de Estamira ter enlouquecido é amplamente justificado ao longo da história quando se descobre que essa mulher já sofreu muito e agora resolveu mostrar por que sofrera tanto, em seu entendimento, e de quem é a culpa, o “trocadilho”, como é chamado o culpado pela Estamira, assume várias interpretações, porém a mais legível é a de que Deus seja o “trocadilho” e o culpado pela situação a qual se encontra a personagem. Não isentando o homem de culpa vê que muitas situações deveriam estar diferentes, como por exemplo a quantidade de lixo desperdiçado pela sociedade. Ela acha um grande desperdício e diz que os homens não pensam antes de certas atitudes. Nesse ensejo ela pronuncia uma frase muito interessante: “A Terra disse, ela falava, agora que já ta morta, ela disse que então ela não seria testemunha de nada.” Há um significado atual para essa frase que classifica o homem como o causador do mal ambiental na terra e agora que a terra já ‘acabou’ a terra disse que não seria testemunha de nada, ou seja, a terra não tem com que se importar, ela mandou sinais, avisou. Outra passagem marcante diz respeito ao comunismo superior: “Todos homens tem que ser iguais, tem que ser comunistas” quem sabe essa não é uma mensagem para a sociedade que só pensa em consumo de forma desenfreada e capitalista?!
Em síntese o que se tem a dizer sobre Estamira restringe-se a um campo vago. O básico comum: Estamira enlouqueceu por que sofreu muito na vida, foi alvo do conjunto capitalista e todos os seus defeitos, todas as suas crises. Embora seja taxada como louca não perdeu o essencial para isso: a lucidez dos fatos.
